Publicidade Online: A Era Acadêmica da Internet

É difícil precisar ao certo uma data para a transição da Era Militar para a acadêmica. Contudo, é certo que os objetivos militares estiveram mais no planejamento e no impulso inicial para o desenvolvimento da tecnologia. Para colocar o projeto da rede descentralizada em prática a Arpa precisou contar com o envolvimento de centros de pesquisas e universidades, que remodelaram os objetivos iniciais. Ao passo em que utilizava as redes de universidades e centros de pesquisa para formar sua rede descentralizada de computadores, a Arpa permitia que se juntassem ao projeto estudantes, pesquisadores e docentes com nenhuma ligação com os objetivos militares iniciais.

Este novo público via na internet a oportunidade de estreitar seus relacionamentos sociais com pesquisadores e estudantes de outros centros geograficamente distantes. Os acadêmicos deram à internet um ambiente mais relaxado do ponto de vista da segurança e com ampla liberdade de utilização. A atmosfera acadêmica tradicionalmente prega a liberdade de expressão e pensamento e fatalmente estes valores foram transferidos para a Arpanet. Mesmo os excessos da imaturidade estudantil, que por vezes confundem liberdade com libertinagem, foram marcantes na formação cultural da Rede durante esta Era.

Em conformidade com a tradição da pesquisa universitária, os criadores da Arpanet envolveram estudantes de pós-graduação nas funções nucleares do projeto da rede, numa atmosfera totalmente relaxada do ponto de vista da segurança. Isso incluía o uso da Arpanet para conversas pessoais de estudantes e, segundo consta, discussões sobre oportunidades para compra de maconha. (1)

A interconexão dos computadores passou a ser utilizada como meio para a liberdade. A possibilidade de democratizar o acesso a informação seduzia os estudantes que encontraram neste projeto algo que poderia ser útil aos seus ideais.

Essa cultura estudantil adotou a interconexão de computadores como um instrumento da livre comunicação, e, no caso de suas manifestações mais políticas, como instrumento de libertação, que, junto com o computador pessoal daria às pessoas o poder da informação e lhes permitiria se libertar tanto dos governos quanto das corporações. (2)

Longe do objetivo militar, a Arpanet se expandiu, indo além do processamento das informações estratégicas para ser uma ferramenta democrática de acesso à informações e ao conhecimento. Já se apresentavam intenções de garantir seu acesso a todas as pessoas, como forma de intensificar a disseminação da educação e o acesso livre às informações.

A cultura da liberdade trazida pelos acadêmicos tem seus traços marcados tão profundamente na internet que algumas aplicações desenvolvidas nos dias atuais encontram dificuldades para se estabelecer. Por exemplo, podemos citar as dificuldades em garantir a segurança de dados e informações por parte de aplicativos de gestão bancária e financeira e por sites de comércio eletrônico. Como culturalmente os estudantes e pesquisadores queriam expandir a rede para garantir o acesso livre e democrático à informação, essencialmente a internet não tem estruturas para restringir o acesso.

Logo o termo internet passou a ser utilizado, substituindo a Arpanet, indicando que a rede que antes queria apenas descentralizar estrategicamente o processamento de informações, agora já alcançava proporção mundial e seus horizontes de crescimento haviam se alargado. Ao invés de descentralizar uma pequena rede, a Arpanet conectou muitas outras. O projeto que nasceu para dividir tarefas de processamento se tornou a possibilidade de união e interconexão de computadores em todo o mundo.

Foram os estudantes e pesquisadores que desenvolveram os principais serviços e protocolos utilizados na internet, como por exemplo o e-mail (correio eletrônico), a World Wide Web (conhecida como www ou apenas web, que permite o acesso a informações textuais, gráficas e multimídia por meio de navegadores), ftp (protocolo especial para transferência de arquivos) e o telnet (que permite a conexão entre computadores remotos).

Foi nesta Era que o Brasil teve seu primeiro contato com a internet, quando a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) conectou sua rede com o a rede de um centro de pesquisa norte americano chamado Fermilab (Fermi National Accelerator Laboratory). Contudo, a internet no Brasil teve seu maior impulso durante a realização da Eco-92, uma conferência mundial de organizações não governamentais sobre o meio ambiente realizada no Rio de Janeiro em 1992. Durante a conferência funcionou um sistema online de transmissão de informações via correio eletrônico para facilitar o acompanhamento dos debates (3).

Este momento acadêmico perdurou até o início da década de 1990, quando começaram a surgir empresas especializadas no fornecimento de acesso à Rede, inaugurando uma nova Era no desenvolvimento histórico da internet.

No próximo post conheceremos a Era Comercial ou Especulativa do desenvolvimento histórico da internet.

Referências

(1) CASTELLS, Manuel. A Galáxia da Internet: reflexões sobre a internet, os negócios e a sociedade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003. p.21

(2) idem, p.26.

(3) VIEIRA, Eduardo, Os bastidores da Internet no Brasil: as histórias de sucesso e fracasso que marcaram a Web brasileira. Barueri-SP: Manole, 2003. p.8.

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