Quem tem medo da Dona Ilma?

Dona Ilma trabalha na escola há tanto tempo que não há qualquer outro ali que possa dizer desde quando.

A escola é igual a tantas ouras. Corredores compridos com salas de aula intercaladas lado a lado.

A sala da Dona Ilma fica no fim de um desses corredores. O único em toda a escola onde há salas que não são de aula.

Todos na escola sabem quem é a Dona Ilma e todos sabem que ela é importante. Há uma aura de respeito que beira ao temor em torno de tudo que diz respeito a ela.

– Vou contar pra Dona Ilma! Apelam diante de qualquer ameaça os alunos perseguidos e sem muita esperteza para se defenderem sozinhos.

Poucos sabem exatamente qual a função da Dona Ilma. Ela não é professora e nem diretora da escola. Secretária ela também vive esbravejando que não é. Talvez seja esse mistério que lhe garanta o respeito.

– Sei lá. Melhor não ser mandado para a sala da Dona Ilma. Ela é brava.

Como em uma escola pode haver alguém tão brava que todos temam? A menos que seja um daqueles liceus onde se pode dar palmadas e forçar ajoelhar sobre grãos de milho, o que há naquela sala para se temer tanto? Uma bronca? Uma advertência? De que elas servem nos dias de hoje?

E quem é que deu à Dona Ilma o poder da bronca? Porque a bronca dela parece valer mais que as das professoras de cada sala? Até o prenome reforça o mito. Ela é Dona e as outras são Tias.

Mas tem uma tia que, um dia por ano, se vinga do medo. Ela descobriu o caminho por acaso,sem planejamento e, mesmo sabendo que aquilo somente se repetiria uma vez por ano e que duraria apenas o tempo de uma única aula, era esse o momento que ela esperava com mais devoção. Era a professora do quarto ano A.

Aquilo se tornou um apoio sobre o qual ela depositava toda sua frustração com o sistema educacional e sua decepção com a escola. Ela via ali uma oportunidade de se desfazer do sentimento de impotência que a acometia quando se dava conta de que as crianças estavam sendo aprisionadas ao medo.

A coisa se repete já há uns dez anos. A sala do quarto ano A é uma das poucas salas de aula que ficam no mesmo corredor que a sala da Dona Ilma. As outras salas dali não são de aula.

Acontece apenas alguns dias após o dia da primeira prova, lá pelo mês de maio, quando os alunos, as professoras e a Dona Ilma são bastante cobrados e acabam ficando mais tensos. Com medo.

Nesse dia que já virou ritual a professora escreve a data no quadro a giz, pede para que os alunos abram o livro na página 72 e anuncia em um tom que faz parecer que aquele é o assunto mais interessante de todos:

– Hoje vamos falar de pronomes de tratamento.

Então ela vai explicando que a cada autoridade é reservado um pronome de tratamento formal, que deve ser utilizado em correspondências oficiais e convites dirigidos a elas, bem como em cerimoniais de eventos em que se fizerem presentes e precisarem ser anunciadas.

Os alunos até que gostam de saber que as autoridades de Estado dever ser chamadas de Vossas Excelências ou Excelentíssimos Senhores, que o bispo não é só Dom, mas também é Vossa Eminência ou Eminentíssimo Senhor. Tem sempre um que acha exagero chamar o reitor da universidade de Vossa Magnificência ou Magnífico Senhor.

– Ah! Eu já vi chamarem o papa de Vossa Santidade na TV.

Eles se atrapalham mesmo é com as abreviações. V. Ex.ª e V. Mag.ª parecem mais fórmula de matemática que coisa da aula de português.

É no fim da aula que a professora vai a forra. Depois de já ter explicado todos os pronomes, vocativos e abreviações correspondentes, ela diz que há um pronome reservado para quando a autoridade não é tão autoridade assim. Nesses casos o fulano que se acha importante mas não tem um cargo que se enquadre nos outros casos deve ser chamado de Ilustríssimo.

Ela faz em tom de deboche, para que os alunos percebam que isso é título para quem se acha mais importante do que é de fato. Eles até começam a chamarem uns aos outros de Ilustríssimos e Ilustríssimas.

Nessa hora muitos já estão rindo quando se dão conta de que no caso feminino a abreviação do pronome dos egos inflados é… Ilma.

O riso vai aumentando e logo se torna uma gargalhada generalizada. Como se todos passassem a entender por que a Dona Ilma se chama Ilma.

A Iluminíssima Dona Ilma ouve os risos e depois da aula elogia a professora por ter conseguido despertar os ânimos da turma tão fervorosamente.

Para esses alunos o medo da Dona Ilma vira deboche disfarçado. Ninguém mais depois do quarto ano, turma A, tem medo da Dona Ilma. Aparece um riso preso no canto da boca toda vez que o nome da toda poderosa é evocado.

E a professora… Bem, a professora fica feliz por tê-los libertado e fica esperando o próximo ano, quando alguns dias depois da primeira prova terá a chance de se vingar novamente.

Eu sou do quarto ano A.

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Missão: entender a missão da Petrobrás

Como leciono disciplinas de Administração e Gestão Estratégica para o curso de Comunicação, tenho acompanhado há algum tempo o modo como algumas empresas expressivas lidam com seu Planejamento Estratégico, especialmente aquela parte que deve ser pública e transparente, que normalmente contém a declaração da missão, da visão, dos valores e outros enunciados importantes para que possamos conhecer um pouco sobre a identidade uma organização.

Uma dessas empresas que optei por acompanhar tem sido a Petrobrás. Isso vem desde que me convenceram a colocar parte do meu Fundo de Garantia em ações da petroleira. Nesse período, a estatal vinha mantendo certa estabilidade em seu Planejamento Estratégico e poucas mudanças ocorreram em sua missão e visão, até que, em 2007, foi descoberto o petróleo do-pré sal e algumas alterações começaram a aparecer.

Estou escrevendo aqui com pouquíssimo conhecimento de causa, uma vez que tudo o que sei é o que vejo no site oficial da companhia e no noticiário em geral. Mas mesmo assim é possível aprender algumas coisas importantes sobre o Planejamento Estratégico observando as mudanças feitas pela Petrobrás em sua missão e visão nos últimos anos.

Missão da Petrobrás

A Missão de uma empresa deve representar claramente sua razão de ser. Deve responder a perguntas do tipo: Quem somos? Para que existimos? O que e como fazemos?

Até 2013 a Petrobrás declarava sua missão da seguinte forma:

Atuar de forma segura e rentável, com responsabilidade social e ambiental, nos mercados nacional e internacional, fornecendo produtos e serviços adequados às necessidades dos clientes e contribuindo para o desenvolvimento do Brasil e dos países onde atua.

Quando eu apresentava essa missão aos meus alunos costumava omitir de qual empresa era e pedia para que eles tentassem adivinhar. Perceba que é impossível. Nada no texto faz referência ao mercado ou ao negócio da estatal.

O ponto forte desta missão é que ela contém recados claros para os principais públicos da companhia. Ela diz aos acionistas que atua de forma segura e rentável; diz aos preocupados com a sustentabilidade que tem responsabilidade social e ambiental; e diz ao governo que contribui para o desenvolvimento do Brasil.

O ponto fraco fica justamente por conta da ausência de referência ao core business da empresa, não fazendo qualquer referência ao mercado em que ela atua.

Creio que para corrigir esse problema, o texto foi alterado recentemente e hoje (2014) está publicado da seguinte forma no site da companhia:

Atuar na indústria de petróleo e gás de forma ética, segura e rentável, com responsabilidade social e ambiental, fornecendo produtos adequados às necessidades dos clientes e contribuindo para o desenvolvimento do Brasil e dos países onde atuamos.

Perceba que pouca coisa mudou na essência. Apenas foi incluído no começo do texto a menção ao mercado da companhia: indústria de petróleo e gás.

Visão da Petrobrás

É no texto da Visão que as alterações do planejamento estratégico da Petrobrás são mais reveladoras, na minha opinião. O texto não mudou, mas o modo como ele é apresentado nos proporciona uma boa oportunidade de aprendizado.

A Visão de uma empresa deve ser uma espécie de desafio ou objetivo de longo prazo. Deve responder a perguntas do tipo: Para onde estamos indo? Onde e como queremos estar no futuro?

Praticamente desde que o petróleo do pré-sal foi descoberto em 2007, a empresa adota o mesmo texto em sua Visão:

Ser uma das cinco maiores empresas integradas de energia do mundo e a preferida pelos nossos públicos de interesse.

Sabemos que a Visão deve refletir a realidade do ambiente e das condições de mercado enfrentadas pela empresa e deve ser flexível o suficiente para dar conta das mudanças que sempre acontecem no macro ambiente. Quando esse texto foi proposto pela primeira vez, a Petrobrás era a oitava maior empresa de energia do mundo e a perspectiva de aumento na produção com o pré-sal permitia perfeitamente se pensar em levá-la até a quinta posição. Então o site dizia: “Visão 2012″. Ou seja, a empresa pretendia alcançar a quinta posição até o ano de 2012.

Porém, uma variável do macro ambiente de origem legal impediu que isso fosse possível. O Congresso e o Governo (Federal e Estaduais) demoraram para estabelecer um acordo sobre qual deveria ser o modelo de exploração do petróleo do pré-sal e como deveria ser a partilha do dinheiro que ele geraria entre os Estados e Municípios.

Assim que percebeu essa dificuldade, a Petrobrás não mudou o texto de sua Visão, mantendo-o exatamente como acima. Porém, fez uma mudança sutil, que no site apareceu da seguinte forma: “Visão 2020″. Ou seja, em 2012 ela passou a acreditar que, com o atraso na legislação, somente em 2020 seria possível alcançar a quinta posição entre as maiores empresas de energia do mundo.

Chegando ao final de 2013 a empresa percebeu que o cenário mudou novamente e que não será possível alcançar a quinta posição em 2020.

Entre 2010 e 2013 a empresa perdeu 50% de seu valor de mercado e caiu da 12ª para a 120ª posição entre as maiores empresas do mundo.

Para dar conta dessa nova realidade, mais uma vez a empresa manteve o texto de sua Visão exatamente como apresentado acima, porém fazendo mais uma mudança na data. Atualmente essa é a “Nossa Visão 2030″.

Minha opinião é que, na prática, lançar um objetivo para tão longo prazo (daqui até 2030 são 18 anos) significa que a companhia tem poucas certezas de que conseguirá alcança-lo e está esperando que sua situação política se estabilize (creio que hoje o STF deve definir sobre a CPI da Petrobrás) para reavaliar sua visão.

Continuarei acompanhando.

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Jornalistas, vocês estão fazendo isso errado!

No campo da Comunicação, o Jornalismo para mim é a área mais desconhecida. Mas pelo pouco que sei desta praia, como cidadão, leitor de jornal e consumidor de notícias em todas as mídias, dá perceber quando alguma coisa está estranha.

Assunto das últimas semanas, a situação do Deputado Federal André Vargas (PT-PR) tem sido noticiada todos os dias, especialmente por aqui, em Londrina, onde moro e onde é a base eleitoral do Deputado. Até ontem era certo que ele renunciaria. Hoje a notícia é que ele não renunciou. E parece que isso tudo ainda vai longe, a final ainda temos alguns meses até a eleição e, quanto mais esses “escândalos” renderem, melhor para os adversários.

Tudo bem, mas isso é o normal da cobertura diária de política. O que há de novo nesse caso?

Para mim o que chamou a atenção foram as fontes citadas nas reportagens, seja para afirmar que o Deputado renunciaria ou para informar que ele desistiu de renunciar e que talvez enfrente a Comissão de Ética…

O pouco que sei sobre os cânones do jornalismo dá conta que os jornalistas precisam ouvir os dois lados de uma história e para isso possuem suas fontes. Tais fontes devem ser críveis, mas, vez por outra podem ser omitidas para que sejam protegidas e continuem colaborando com o jornalista.

Na Questão Vargas, os jornalistas estão tendo como fonte o próprio Deputado! Olha que legal! Alguns conseguiram o número do telefone celular do parlamentar e com isso puderam trocar mensagens diretamente com ele para saber se renunciaria ou não. Boa fonte! Parabéns.

Mensagens com Andre Vargas

Porém, contudo, no entanto, os papos via celular vieram parar dentro das próprias notícias. Assim mesmo como na imagem acima… A telinha do celular com o papo entre o Jornalista e o Deputado estão aparecendo na TV.

Jornalista, o celular aqui é só o meio… Sua fonte é o próprio Deputado. Bastaria dizer que ele afirmou que renunciaria. Não era necessário colocar a telinha do seu celular ali, na notícia, pra todo mundo ver. Agora todo mundo sabe que é assim que você consegue as notícias!

Duas coisas vão te acontecer agora. Caso ainda não estejam acontecendo ou você ainda não saiba, são elas:

1) outros parlamentares espertinhos vão dar um jeito de te fazer saber o número do celular deles para  “sem querer” deixar vazar informações “importantes” para a eleição. Isso significa que ao evidenciar o modo como você faz a notícia, os espertinhos vão te manipular pois descobriram como virar notícia.

2) o Deputado André Vargas e outros rabos-presos vão te bloquear ou te ignorar, deixando de te responder para não correr o risco de que as mensagens deles apareçam na TV.

Ah! Não se esqueça de que tudo começou por que a Polícia Federal grampeou mais de 6 mil mensagens entre Vargas e Yousseff… Proteja suas mensagens ai, espertão, senão elas atuarão contra você.

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O Marco Regulatório Civil da Internet e a história do mercado publicitário brasileiro

Enquanto escrevo esse post a Câmara dos Deputados deve estar decidindo se coloca ou não em votação o Projeto de Lei que cria o Marco Regulatório Civil da Internet no Brasil. Isso tem acontecido pelo menos há três semanas. Toda terça o governo (PT) promete colocar o projeto em votação, mas desiste depois de ameaças do PMDB de não aprovar o texto como está.

O impasse

O Deputado Federal Alessandro Molon (PT-RJ) é o relator do Projeto de Lei defendido pelo governo federal. Seus principais opositores são os Deputados do PMDB, que além de não estarem de acordo com o projeto “oficial” prepararam um projeto substitutivo com as alterações de seu interesse.

O PMDB tem dado duas opções ao governo: ou o PT altera alguns pontos no projeto original, ou o PMDB não aprova o projeto original e coloca em votação seu projeto substitutivo.

O projeto original possui pelo menos dois pontos sensíveis que há semanas são discutidos por PT e PMDB.

O primeiro desses pontos é a exigência de que os provedores de acesso à internet mantenham o histórico de navegação de seus usuários em data centers localizados no Brasil, como forma de “blindar” o país de espionagens externas mas também como forma de facilitar o acesso a esses dados caso a justiça, em algum processo, venha a autorizar a quebra do sigilo digital de algum cidadão. O projeto original previa esse mecanismo mas o governo já abriu mão dessa parte do texto e ela não mais fará parte do Marco Civil da Internet, ficando os provedores livres para manter seus data centers e registros de acesso em qualquer lugar do mundo, pelo menos até que surja alguma outra lei regulamentando essa questão.

O segundo ponto, mais polêmico, é tão falada neutralidade da rede. O texto do governo pretende manter as coisas como estão, ou seja, manter o princípio da neutralidade praticado atualmente na internet. Com a neutralidade, todas as informações que trafegam na rede devem ser tratadas da mesma forma, navegando com a mesma velocidade. É esse princípio que garante o livre acesso a qualquer tipo de informação na rede. Sem a neutralidade os provedores poderão dar tratamento diferenciado ao tráfego de cada usuário, cobrando mais ou alterando a velocidade do acesso dependendo do tipo de informação que cada um estiver acessando. O PMDB é contra a neutralidade e esse é o principal ponto que está impedindo a votação do projeto.

O projeto também trata da privacidade dos usuários e da liberdade de expressão, mas esses pontos não são alvos das negociações entre PT e PMDB, pelo menos não publicamente.

Independente desse projeto ser ou não votado hoje e de se manter ou não o princípio da neutralidade, já é possível tirar boas lições desse processo todo, especialmente quando comparamos com episódios parecidos ocorridos no passado.

O mercado publicitário e as lições do passado

Em outras épocas, mais precisamente entre as décadas de 1940 e 1970, os meios de comunicação que hoje chamamos de tradicionais (jornal, revista, rádio e televisão) eram a bola da vez. Naquela época havia uma crescente preocupação do mercado em relação as tentativas feitas pelo governo de regulamentar  o mercado das mídias, principalmente no que diz respeito à veiculação de publicidade.

Para conseguir participar das discussões sobre essas leis, o mercado publicitário se uniu criando uma série de entidades representativas capazes de defender os interesses do setor junto à sociedade e até mesmo junto ao governo, impedindo que legislações paralizantes fossem aprovadas. Assim, em 1949 foi criada a ABAP (Associação Brasileira das Agências de Propaganda); em 1959 foi criada a ABA (Associação Brasileira dos Anunciantes); em 1962 foi criada a ABERT (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão); em 1979 foi criada a ANJ (Associação Nacional dos Jornais) e em 1986 foi criada a ANER (Associação Nacional dos Editores de Revistas).

Mais do que conseguir negociar uma legislação mais branda com o governo, essas entidades representativas (e algumas outras como a Central do Outdoor) juntas conseguiram quase que evitar completamente que tais leis fossem criadas, minando por completo as iniciativas do governo em regulamentar o setor. Elas conseguiram criar um eficiente mecanismo de autorregulamentação capaz de manter o setor em ordem mesmo sem muito controle governamental.

Uma das iniciativas dessas entidades foi a criação do Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária, que é um documento que contém orientações sobre o que pode e o que não pode ser dito nas peças publicitárias. E, para fazer cumprir o disposto nesse documento, criaram o Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária), que se apresenta da seguinte forma:

O Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária nasceu de uma ameaça ao setor: no final dos anos 70, o governo federal pensava em sancionar uma lei criando uma espécie de censura prévia à propaganda. Se a lei fosse implantada, nenhum anúncio poderia ser veiculado sem que antes recebesse um carimbo “De Acordo” ou algo parecido. (CONAR)

A internet e a conclusão

Em resumo, o que aconteceu no mercado publicitário foi o seguinte: o governo faria leis que, caso fossem duras demais, prejudicariam todo o setor, tornando-o menos dinâmico. Para participar das discussões, o mercado criou entidades representativas que, juntas, foram capazes de anular quase que totalmente a necessidade dessas leis, criando um eficiente mecanismo de autorregulamentação.

E no caso da internet? Como as coisas estão acontecendo? Há uma ameaça ao setor, como aconteceu com a publicidade no fim dos anos 70?

Por ainda ser uma tecnologia nova, que mal sabemos exatamente que potencial tem, a internet não possui até o momento entidades representativas fortes. É possível citar como defensoras dos interesses da web várias entidades, mas também é possível perceber que elas estão pouco articuladas.

Por exemplo, existem inúmeras Associações de Provedores mas nenhuma com representatividade de fato sobre o setor. É como se as associações da internet ainda estivessem competindo entre si para conquistar mais associados, ao invés de defender os interesses do setor e negociar com o governo uma legislação melhor.

O mercado da internet não conseguiu se organizar a tempo. Por isso hoje suas regras são discutidas pelo PT e pelo PMDB, e não por suas entidades representativas, como aconteceu com o mercado publicitário no passado.

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O PIB, o Brasil e o Capital

Embora esteja entre meus interesses, a Economia não é exatamente minha área. Por isso não pretendo neste post fazer juízo de valores ou qualquer tipo de julgamento a respeito de sistemas econômicos ou políticos. Pretendo apenas estabelecer algumas relações entre alguns números fundamentais e gerais da economia mundial.

De acordo com números do Banco Mundial, o PIB do mundo em 2012 foi de U$ 71,67 trilhões. Isso significa que a soma de todas as riquezas produzidas no mundo em todo o ano de 2012 em todos os países do mundo, chega perto de setenta e dois trilhões de dólares americanos.

A participação do Brasil, 7ª economia do mundo, neste bolo é de apenas U$ 2,253 trilhões. Mas o nosso principal drama tem sido a baixa velocidade com que esse número cresce. Nos últimos 3 anos com números já fechados o PIB brasileiro cresceu muito pouco, em um ritmo inferior à média do mundo. Em 2011 crescemos 2,7%, em 2012 crescemos 0,9% e em 2013, número recentemente divulgado, crescemos 2,3%, conforme dados do IBGE.

Generalizar normalmente não é uma boa coisa a e fazer, pois não permite avaliar as peculiaridades de cada realidade, mas mesmo assim é possível, por meio da generalização, fazer algumas comparações e inferir algumas considerações importantes sobre esses dados.

Relação PIB / População

O mundo tem 7,046 bilhões de habitantes. Isso significa que, em 2012, o total de riquezas produzidas (U$ 71,67 trilhões) correspondem a U$ 10.170,68 por habitante, o que equivale a U$ 847,56 por mês por pessoa. Considerando o câmbio atual, com o dólar a R$ 2,34, se o PIB mundial em 2012 fosse distribuído equitativamente por todos os habitantes da Terra, cada um teria uma remuneração mensal de R$ 1.983,29. Mais do que suficiente para garantir uma vida digna na maioria dos países.

Fazendo a mesma relação com os números do Brasil, temos o seguinte cenário:

Tínhamos em 2012 uma população de 198,7 milhões de pessoas (atualmente somos 202.290.000 de brasileiros, segundo o IBGE).  O total de riquezas produzidas no Brasil em 2012 (U$ 2,253 trilhões) correspondem a U$ 11.876,64 por habitante, o que equivale a U$ 989,72 por mês por pessoa. Considerando o câmbio atual, se o PIB do Brasil fosse distribuído equitativamente para todos os brasileiros, cada um teria uma remuneração mensal de R$ 2.315,94. Mais do que suficiente para garantir uma vida digna por aqui.

O PIB e o Capital

Os números acima mostram que o total de riquezas produzido no mundo é o suficiente para garantir dignidade a todos os habitantes do planeta. Mas sabemos que não é assim, pois o PIB não é distribuído igualmente entre todos. Nem deve ser.

Numa economia capitalista, como temos na maioria dos países do mundo, apenas parte das riquezas geradas são destinadas ao sustento do estilo de vida de cada um, incluindo seus gastos com alimentação, moradia, transporte, lazer, cultura, educação, saúde etc., e sua renda deve ser o suficiente para pagar essa conta.

Há uma outra parte das riquezas que é convertida em capital produtivo, que não é utilizado para o consumo das pessoas pois é empenhado no financiamento do próprio crescimento econômico, como a criação de empresas, investimentos em máquina e equipamentos, investimentos públicos e privados em infra-estrutura e até mesmo investimento no próprio crescimento do capital.

O PIB per capita brasileiro, como vimos, foi de R$ 2.315,94 em 2012. Número que fica bem próximo ao Salário Mínimo Necessário, calculado pelo DIEESE, que em 2012 foi de R$ 2.561,47 e hoje seria de R$ 2.778,63. Porém, para que tenhamos realmente condições de oferecer essa renda a cada cidadão produtivo desse país, ainda temos que avançar muito. Precisamos ser capazes de acelerar de fato (e não apenas politicamente como é feito no PAC) o investimento em infra estrutura e modernização do Brasil. Precisamos criar as condições para que se criem por aqui empresas sólidas, competitivas e sustentáveis, capazes de fazer ficar por aqui as riquezas que são geradas por aqui. Precisamos capacitar os Brasileiros, para que se tornem mais produtivos e mais capazes de gerar riquezas para si mesmos…

O caminho ainda é longo. Não dá para percorrê-lo tão devagar como estamos fazendo (crescendo entre 1 e 2% ao ano).

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Facebook, Whatsapp e o que podemos aprender com essa fusão sobre o mercado digital

Ok, todo mundo já sabe que o Facebook comprou o Whatsapp por U$ 16 bilhões. Aconteceu há menos de 1 semana e já é notícia velha. E isso é bom. Agora que não é mais notícia fresca é hora de fazer análises e reflexões mais profundas sobre o que ela significa.

Particularmente, tenho uma visão conflituosa sobre o mercado digital. Por um lado, é dele que vivo e é nele que consigo o que preciso para pagar minhas contas e crescer financeiramente, acredito e aposto em seu potencial. Por outro lado, posso dizer que, em comparação com certas declarações que vejo por ai, sou bastante cético em relação a ele. Costumo pensar que sou “pé-no-chão”. Enxergo o crescimento avassalador do mercado digital, mas também percebo exageros que poderiam distorcer essa visão.

America Online compra Time Warner por U$ 164,7 bilhões

Quando comecei a me interessar por esse mercado, comecei a acompanhar sua dinâmica: quem são os players, o que estão fazendo e como estão pensando. Assim as notícias sobre aquisições e mudanças nas grandes empresas do setor sempre chamaram minha atenção, sendo que a primeira delas foi a aquisição da Time Warner pela America Online (AOL) ocorrida em 2001 pelo valor de U$ 164,7 bilhões. Entendo que esse valor não significa que a compradora tenha o desembolsado integralmente, pois negócios como esse envolvem uma complicada engenharia financeira e transações com ações e participações difíceis de explicar. Mesmo assim ele se tornou um bom parâmetro para o mercado. Na época foi chamado de o maior negócio da história do capitalismo.

Além de chamar a atenção pelo valor da transação, a fusão entre essas duas empresas também chamou a atenção por seu significado na história das mídias. A Time Warner era e ainda é uma das empresas mais tradicionais do mercado da comunicação, sendo uma das maiores produtoras e distribuidoras de conteúdo do mundo. Já a AOL era uma novata, um provedor que cresceu bastante durante a Era Especulativa da internet. Quando a novata comprou a tradicional por um valor astronômico, ficou claro que esse mercado tinha mudado. E rápido.

Na época eu via esse negócio com bastante entusiasmo. Escrevi bastante a respeito e comentava entre amigos que uma coisa fantástica tinha acontecido e que acreditava que esse era apenas o início de uma nova era do capitalismo e da história das mídias, onde as empresas modernas e digitais tomariam conta de todos os mercados e dominariam todos os setores possíveis. A questão é que isso não se consolidou. Em termos de valores, não aconteceram outros negócios como esse. Com o estouro da bolha da internet a AOL de desvalorizou rapidamente e a Time Warner voltou a ser a marca mais importante do grupo.

Então eu continuei acompanhando essas transações mas com outros olhos e com muito mais “pé-no-chão”.  Os tempos mudaram e as cifras também. Não me lembro de outro negócio no setor da tecnologia ou da comunicação que tenha se aproximado de U$ 100 bilhões. Mesmo assim, cada uma dessas aquisições revelam para onde o mercado está indo.

Lembremo-nos de alguns deles:

  • Em 2006 o Google comprou o Youtube por U$ 1,65 bilhões;
  • Em 2011 o Google comprou a divisão de celulares da Motorola por U$ 11,5 bilhões;
  • Em 2012 o Facebook comprou o Instagram por U$ 1 bilhão;
  • Em 2013 Jeff Bezos comprou o The Whasington Post por U$ 250 milhões;
  • Em 2013 a Microsoft comprou a Nokia por U$ 7,2 bilhões;
  • Em 2014 o Google vendeu a divisão de ceulares da Motorola por U$ 3 bilhões;
  • Em 2014 o Facebook comprou o Whatsapp por U$ 16 bilhões.

Somados os valores dessas operações chegam a U$ 40,57 bilhões, ainda longe do valor do negócio entre AOL e Time. Veja a comparação:

Comparação dos valores dos principais negócios do mercado digital

clique para ampliar

Google compra Youtube por U$ 1,65 bilhões

Em 2006, por pouco mais de um centésimo do valor do acordo AOL-Time o Google, que já era uma gigante do novo mercado, adquiriu o serviço de compartilhamento de vídeos Youtube, que se tornara muito popular nos últimos meses. Pelo que me lembro esse foi o primeiro grande negócio depois da crise financeira da internet ocorrida no final dos anos 1990.

Com um centésimo do valor, esse negócio talvez tenha gerado tanto buzz quando o primeiro. Não pela cifra, mas pelo que ele anunciava. Quando foi adquirido, a operação do Youtube era deficitária, ou seja, era um modelo de negócio que dava prejuízo. O que a empresa conseguia arrecadar com propaganda nem de longe era suficiente para bancar os custos gigantescos de se manter um sistema de armazenamento e distribuição de vídeos pela internet. O recado dado pelo Google quando adquiriu a empresa mesmo sem perspectivas de lucro foi de que ele acreditava que o vídeo seria importante no futuro da internet.

Agora, quase 10 anos depois da operação, parece que o retorno começa a aparecer, sendo que o Youtube é a segunda ferramenta de busca mais utilizada do mundo, ficando atrás apenas do sistema de busca do próprio Google.

Google compra divisão de celulares da Motorola por U$ 11,5 bilhões

Em 2011, por pouco mais de um décimo do valor da operação entre AOL e Time, o Google anunciou a aquisição da divisão de celulares da Motorola. Em plena ascensão do mercado de smartphones e de uma acirrada disputa por fatia de mercado entre a Apple com o iPhone e o Google com o Android, a aquisição demonstrou a força da gigante das buscas para marcar sua posição nesse mercado.

No começo de 2014, ainda no mês de janeiro, o Google anunciou ter vendido essa mesma empresa por um terço do valor do negócio original, U$ 3 bilhões, para a chinesa Lenovo. Isso mostra que os caminhos para o mercado de telefonia móvel ainda são obscuros e pouco podemos antecipar sobre o futuro desse mercado.

Facebook compra o Instagram por U$ 1 bilhão

Em 2012, mais uma vez por um centésimo do valor do acordo entre AOL e Time, o Facebook, que era a bola da vez no mercado digital, comprou o Instagram, um rede social baseada no compartilhamento de fotos, em um acordo de U$ 1 bilhão.

Foi um negócio arriscado para a gigante das redes sociais, uma vez que se realizou às vésperas de seu IPO. Se os investidores julgasses esse como um mal negócio, o impacto no valor das ações do Facebook em sua estreia no mercado de capitais seria bastante significativo. Mesmo assim o CEO do Facebook Mark Zuckerberg julgou que valia a pena correr o risco e anunciou a aquisição antes o IPO.

A decisão de Zuckemberg demonstrou que valia a pena correr o risco pois o Facebook acreditava que o compartilhamento de fotos  seria importante para o futuro das redes sociais.

Jeff Bezos compra The Washington Post por U$ 250 milhões

Em 2013, por um quatrocentos avos do valor do acordo entre AOL e Time, o fundador da Amazon.com Jeff Bezos, em um investimento pessoal e não de sua empresa, adquiriu o The Washington Post, um dos jornais diários mais tradicionais dos Estados Unidos, com mais de 130 anos de história.

Mais uma vez uma empresa do novo mercado digital compra uma empresa de mídia tradicional, o que torna a transação bastante emblemática. Bezos deixou claro que essa foi uma aquisição pessoal dele, e não da Amazon.com. Os executivos de sua empresa não se envolveram nas negociações e ele mesmo conduziu todo o processo. Em um comunicado aos colaboradores do Post, afirmou que não se envolverá, pelo menos à princípio no dia a dia da empresa e que os executivos atuais serão mantidos.

Dois mundos se encontram nessa transação: o impresso e o digital, o tradicional e o moderno. A pesar dos discursos não darem margem para a expectativa por mudanças, é certo que muita coisa deve acontecer nos próximos meses e anos. O know-how de uma empresa pode contribuir muito com a operação da outra. Resta esperar as novidades.

Microsoft compra Nokia por U$ 7,2 bilhões

Ainda em 2013 e ainda por uma fração do negócio entre AOL e Time, duas gigantes da tecnologia anunciaram uma transação com valor total de US$ 7,2 bilhões. Com esse valor a americana Microsoft assumiu o controle da finlandesa Nokia.

As duas parecem já ter vivido seus tempos dourados e agora buscam alternativas para continuarem se destacando no mundo da tecnologia. As duas empresas estão atuando em parceria desde fevereiro de 2011, quando a Nokia anunciou que deixaria de utilizar em seus aparelhos o seu sistema operacional próprio – o Symbian – e passaria a utilizar o sistema operacional da Microsoft para celulares, o Windows Phone.

Facebook compra Whatsapp por U$ 16 bilhões

De longe a operação com valor mais alto desde o estouro da bolha especulativa da internet no final dos anos 1990. Mesmo assim seu valor corresponde a um décimo do valor do acordo AOL-Time. Agora, em2014, há apenas alguns, dias o Facebook anunciou a compra do Whatsapp, um aplicativo para troca de mensagens via internet muito popular em telefones celulares.

É muito dinheiro. Dependendo da taxa de câmbio o valor em Reais pode ultrapassar os R$ 30 bilhões, valor maior do que o orçamento da cidade do Rio de Janeiro para 2013, que foi de R$ 23,5 bilhões. A mídia noticiou que o valor equivale ao valor total do patrimônio de Mark Zuckemberg.

Com o negócio o Facebook sinalizou que aumentar sua presença nos dispositivos móveis está entre suas prioridades. Podemos acreditar que essa é uma boa aposta de futuro, com o acesso à internet migrando com cada vez mais força dos computadores para os smartphones e tablets.

Considerações finais

Fica discrepância de valores no caso AOL – Time Warner em relação aos valores dos negócios realizados após a bolha da internet. Nenhum outro negócio passou muito de 10% do valor do episódio de 2001.

Fica evidente também que por traz de cada transação dessa há um recado ao mercado. Por meio dessas fusões percebemos que o digital tem potencial para se juntar às grandes empresas tradicionais de mídia. Percebemos que as grandes empresas de mídia e tecnologia têm seu valor e que a inovação que conseguem oferecer ao mercado é que as tornam interessantes. Percebemos que vídeos, fotos e tecnologia mobile estão entre os principais ingredientes dessas notícias já há muitos anos.

Pelo menos é uma história boa de se acompanhar.

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Empresário e Professor: é possível conciliar?

Hoje é uma data importante, e datas importantes só servem para uma coisa: nos fazer lembrar e refletir sobre decisões ou acontecimentos de nossas vidas. Hoje, 20 de janeiro de 2014, a Cedilha Comunicação Digital completa 9 anos de atividades. Não vou detalhar como foram esses anos, pois acho melhor deixar para fazer isso quando completar 10 anos. Mas quero aproveitar a data para fazer uma reflexão sobre duas decisões tomadas nesse período. A primeira foi a de abrir a empresa e a segunda foi a de começar a dar aulas.

Tomei a decisão de abrir uma empresa no ano de 2004 e consegui concretizar abertura em 20 de janeiro de 2005 e comecei a dar aulas em julho de 2007, quando a empresa já estava a pleno vapor. Desde então me questiono todos os dias se é possível conciliar as duas atividades: empresário e professor. Racionalmente sempre pensei que não.

Nunca tinha pensado em ser professor, mas um dia o convite veio e não hesitei em aceitar. Sempre achei que uma das duas atividades logo tomaria toda minha energia e então eu teria de escolher entre uma e outra. Pode até ser que seja assim, mas se for, esse momento ainda não chegou e acho que posso pensar em alguns motivos para isso.

Um dos motivos pelos quais ainda não foi necessário tomar essa decisão é a paixão.

No lado empresário, a Cedilha Comunicação Digital trabalha com as duas áreas que mais gosto e que me encantam a cada dia: Comunicação e Tecnologia, o que me permite acordar todos os dias super motivado para trabalhar.

No lado professor  tenho a felicidade de lecionar em um curso superior de Publicidade e Propaganda, curso que amo, na Faculdade Pitágoras de Londrina, com uma equipe fantástica.

Outro motivo é a sinergia que, no meu caso, existe entre as duas atividades. O que aprendo e vivencio na empresa me servem de conteúdo e experiência para lecionar e o que aprendo dando aulas me ajuda a compreender melhor meu negócio e potencializa a atividade da empresa. Assim fica fácil conciliar.

Sou empresário há 9 anos e professor há 6 anos e meio e posso dizer que conciliar as duas atividades tem seus altos e baixos. Mais altos do que baixos. A única coisa negativa que me ocorre nesse momento são as longas jornadas de trabalho, que as vezes são necessárias. É normal trabalhar três períodos por dia, mas nem sei se considero isso algo negativo pois amo o que faço e qualquer tempo investido em qualquer uma das duas atividades me dá muito prazer.

Sendo assim tudo o que tenho para dizer hoje é: Parabéns Cedilha Comunicação Digital pelos seus 9 anos de atividade e obrigado por todas as oportunidades que me trouxe nesse período, inclusive a de me tornar professor.

#gratidãoeterna

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Timelines: o câncer que está matando a web lentamente

Me perdoem pelo título agressivo, mas quero tentar explicar aqui como para mim ele faz todo o sentido. Conheci a internet (e a web) relativamente cedo, na década de 1990, quando um amigo aficcionado em computadores me chamou até sua casa para mostrar essa coisa fabulosa que abria a possibilidade de conversar com pessoas desconhecidas e encontrar uma infinidade de informações. Quase que ao mesmo tempo a empresa que havia me dado meu primeiro emprego, uma editora, começou a se aventurar na web lançando um site para vender seus livros por meio da rede. Desde então meu fascínio pela web só cresceu, até que nos últimos meses comecei a me dar conta da amplitude de um fenômeno já plenamente em curso que, na minha opinião, está tirando todo seu encanto e destruindo suas principais virtudes: as timelines.

timeline

Não vou contar a história da internet aqui pois já fiz isso em outro post, mas gostaria de relembrar um ponto importante. Motivada por uma necessidade militar, a rede mundial de computadores nasceu às pressas nos anos 1960 quando os militares buscaram apoio do meio acadêmico para a sua criação. Militares e Universitários americanos dividiram as tarefas de criação da internet criando uma estimulante atmosfera de concorrência entre os interesses bélicos dos milicos e os interesses liberais dos universitários americanos hippies, ligados ao pensamento que movia a contra-cultura (CASTELLS, 2003).

A história conta que os interesses dos universitários se sobressaíram aos interesses militares e, mais do que uma arma de guerra, a internet se transformou em uma ferramenta de libertação, presenteando o mundo com uma possibilidade real de que todos pudessem ter de fato liberdade de expressão e de opinião. E é essa a beleza da Internet. Ao contrário dos outros meios de comunicação, nela somos livres para falar e ouvir o que quisermos e com quem quisermos. Pierre Levy e André Lemos (2012) tratam muito bem dos efeitos dessa liberdade ao abordarem a perspectiva da emancipação e a liberação do polo emissor no livro O Futuro da Internet.

Mas a virada de mesa mais empolgante que a web proporcionou em relação às outras mídias foi a de conferir ao seu leitor (usuário), um comportamento ativo e engajado. A passividade de sentar em frente à TV e esperar pelos programas que “passam” diante de nossos olhos de acordo com uma programação previamente estabelecida foi substituída na internet pela busca, pela caça.

A lógica da web criada no início da década de 1990 por Tim Berners-Lee, é a disposição do conteúdo no formato de hipertexto, que graças à convergência digital agora podemos chamar de hipermídia (LEÃO, 1999). Na hipermídia as mensagens encontram-se fragmentadas, uma parte em cada site, um pedaço em cada link, forçando-nos a procurar pelos sentidos, saltando de uma página a outra de tal modo que é a nossa ação quem cria o sentido das mensagens.

Caçar as mensagens e os sentidos nos colocam em estado de prontidão, com nossos sentidos todos em estado de alerta. Reencontramos dentro de nós alguns instintos que estavam anestesiados pela transmissão broadcast da TV e do rádio, para navegar, explorar, procurar aquilo que queremos ver e não aquilo que querem que vejamos. E, para fazer isso, nosso corpo se envolve como se envolveria em uma caçada por alimento (SANTAELLA, 2004): paramos de piscar, suamos mais, a respiração muda, o batimento cardíaco acelera, a pressão arterial se eleva… Estamos vivos!

Estávamos.

A web agora foi dominada pela timeline. Linhas do tempo, cada vez mais inteligentes, programadas, roteirizadas, para nos mostrar apenas aquilo que deveríamos ver. Os algoritmos mais complexos são criados para tirar de nós a necessidade de procurar, de caçar.

A expressão “navegar na internet” faz algum sentido para quem está diante de uma timeline? Ali, parados, esperando a próxima coisa que vai aparecer, estamos sendo postos novamente em nossa condição de passividade, como na TV.

Lembro-me de quando acessar a internet era uma operação complexa, que dava mais certo a noite, quando o pulso telefônico era mais barato. Um tempo em que nem todas as tentativas de conexão eram bem sucedidas. Um tempo em que éramos obrigados a instalar um navegador (browser) para acessar a rede, o que nos tornava conscientes daquilo que estávamos fazendo. Quase nada era automático.

Quem precisa de navegador para ver timelines? Estamos entrando em uma era em que simbolicamente estamos instalando uma TV em nossos computadores.

E o pior de tudo? Estamos achando isso o máximo.

Como diria Raul,

Eu é que não me sento
No trono de um apartamento
Com a boca escancarada
Cheia de dentes
Esperando a morte chegar [ou a timeline passar]

Referências

CASTELLS, Manuel. A Galáxia da Internet: reflexões sobre a internet, os negócios e a sociedade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003

LEÃO, Lúcia. O Labirinto da Hipermídia: arquitetura e navegação no ciberespaço. São Paulo: Iluminuras, 1999.

LEMOS, André; LEVY, Pierre. O Futuro da Internet. São Paulo: Paulus, 2012.

SANTAELLA, Lucia. Navegar no Ciberespaço: O perfil cognitivo do leitor imersivo. São Paulo: Paulus, 2004.

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O fundo falso das pesquisas

Qualquer pesquisa, desde aquela feita para descobrir as origens e os destinos possíveis do universo, até aquela feita para saber o quanto os participantes ficaram satisfeitos (ou insatisfeitos) com seu evento, serve basicamente para gerar conhecimento científico. Conhecimento científico é diferente do conhecimento popular ou do conhecimento religioso, por exemplo, e a gente tende a acreditar que a diferença é que o conhecimento científico é melhor ou mais confiável que os outros tipos. Será que é?

A diferença de fato é que, no caso do conhecimento científico, a gente sabe (ou pelo menos acredita que sabe) como ele foi gerado. Quem gera ou quem apresenta um conhecimento científico deve apresentar junto a metodologia utilizada para produzi-lo. Ou seja, a diferença mais relevante do conhecimento científico para os outros tipo é que sabemos como ele foi feito. Mas isso está longe de deixá-lo mais inquestionável ou melhor que os demais tipos de conhecimento.

Não há metodologia que seja capaz de gerar um conhecimento perfeito, sem mácula ou plenamente confiável, e isso fica muito evidente nos resultados das pesquisas. É bem possível que metodologicamente ou epistemologicamente uma pesquisa esteja “sem erros”, mas se pensarmos na utilidade ou relevância de seus resultados, os problemas começam a aparecer.

Existem um livro com o mesmo título desse post O Fundo Falso das Pesquisas, de Cynthia Crossen, que aponta alguns desses problemas que são bastante reveladores e poucos deles dizem respeito à incorreção da metodologia, mas sim na intenção e no uso dos resultados obtidos.

Estou escrevendo tudo isso por que tenho em minhas mãos um questionário de avaliação de um evento para preencher e sempre que vejo isso acabo questionando as mesmas coisas. Nesses questionários há duas perguntas que parecem obrigatórias: O que você achou do evento? e Como ficou sabendo do evento?

A minha questão é: responder cientificamente a essas questões tem alguma utilidade concreta?

Vejamos a primeira pergunta: o que você achou do evento? Provavelmente você terá de escolher entre algumas alternativas como ótimo, bom, regular, ruim e péssimo. Então os organizadores do evento tomarão as respostas de todos e identificarão estatisticamente a moda, ou seja, aquela resposta que mais apareceu. Digamos, por exemplo que identificaram que 60% dos participantes acharam o evento ótimo ou bom. Esse dado certamente será transformado em um gráfico e fará parte do relatório final do evento e encherá os olhos dos organizadores, afinal a maior parte dos participantes gostou do evento.

Agora, para que serve esse dado? Além de alimentar sua vaidade, que outra utilidade tem saber que 60% das pessoas gostaram do seu evento? Isso vai te levar a mudar alguma coisa na próxima edição? Mudar o que?

Imagine que a resposta fosse o contrário, ou seja, que 60% tivessem considerado seu evento ruim ou péssimo. Isso o impediria de realizar a próxima edição?

Alguém pode dizer: Ah, se a resposta for negativa vou me dedicar mais para que a próxima edição seja melhor. Veja bem, você vai deixar de se dedicar para que a próxima edição seja melhor se a resposta for positiva? O que quero dizer é que esse dado não serve para nada pois não mudará significativamente seu comportamento. Você certamente se esforçará para fazer um evento melhor na próxima edição seja no caso de 60% terem gostado ou no caso de 60% terem odiado a última edição. Nesse caso o dado não muda nada e sendo assim ele é inútil. Desnecessário, a não ser para sua vaidade.

Na segunda questão acontece a mesma coisa. Como você soube do evento? Imagine que 10% disseram ter sabido do evento por anúncio em jornal ou revista, 20% por rádio ou televisão, 25% por indicações de amigos e 45% pela internet. Para que servem esses dados? Para nada!

Dá para dizer que a internet foi o meio de comunicação que mais funcionou na divulgação do evento. Mas a partir desse dado dá para abrir mão dos outros meios? Acredito que não, afinal cada um contribuiu um pouco para a formação de sua audiência.

Alguém pode pensar em investir menos em jornal e revista, pois deram menos resultado. Será que você já não investiu menos nesses meios e por isso eles deram menos resultados? A mesma coisa para internet. Investir mais na internet devido a esses números seria uma boa coisa a se fazer?

Enfim, esse tipo de pergunta só serve para duas coisas: inflamar o ego do organizador do evento e encher o saco dos participantes.

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Aby Warburg, o homem que trocou um banco por uma biblioteca

Abraham Moritz Warburg mais conhecido como Aby Warburg, nasceu em Hamburgo na Alemanha em 6 de junho de 1866 e viveu até 26 de outubro de 1929. Como era de família judaica, conforme a tradição, por ser o filho primogênito, ele naturalmente herdaria o Banco que pertencia à sua família quando seu pai viesse a falecer.

Aby Warburg

Pouco interessado em se tornar um banqueiro, sua biografia conta que, ainda aos 13 anos de idade, propôs um acordo ao irmão mais novo, Max Warburg, que na época tinha 12 anos. A proposta foi a seguinte:

Aby abriria mão do meu direito de herdar o Banco em favor do irmão Max e em troca o Banco lhe daria estabilidade financeira – apenas o suficiente para que ele mantivesse os estudos e sua carreira acadêmica -, e também lhe daria todos os livros que viesse a desejar.

O acordo foi aceito, Max assumiu o Banco e Aby começou a formar aquela que é uma das mais importantes bibliotecas modernas do mundo. Aby era estudioso da história da arte, da linguagem e dos meios de comunicação. Assim, a Biblioteca Warburg, que hoje pertence ao Instituto Warburg, acabou reunindo um importante acervo sobre uma nova ciência que se formava, a Ciência da Cultura. Em 1913 durante a ascensão do nazismo na Alemanha os cerca de 60.000 livros da Biblioteca Warburg foram transferidos para Londres, onde o instituto funciona até hoje.

Há outro fato que torna essa biblioteca ainda mais especial e mitológica: a maneira peculiar, anticatalográfica, como os livros são ordenados em suas extensas prateleiras. Como compreendia que os estudos da cultura deveriam ser interdisciplinares, organizar os livros por categoria não parecia adequado, pois ideias complemanteres ficaram muito distantes uma das outras. Aby então adodou um método próprio, que chamou de “lei da boa vizinhança” para organizar sua biblioteca, colocando lado a lado livros de categorias diferentes, mas que colaboravam para a compreensão de problemas semelhantes.

E você? Como organiza sua Biblioteca?

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